Quantas vezes é preciso dizer que não existe movimento LGBT sem T?
Em janeiro de 2025, a Meta passou a permitir que usuáries fizessem alegações de “doença mental ou anormalidade quando baseadas em gênero ou orientação sexual, considerando o discurso político e religioso sobre transgeneridade e homossexualidade e o uso comum/banal de palavras como ‘estranho’” (Meta, 2025). A notícia assustou muitas pessoas e suscitou discussões sobre o papel das plataformas digitais na construção dos sentidos e imaginários sobre populações vulnerabilizadas, como a população LGBTI+.
Esse foi apenas um aspecto documental - no sentido das documentações apresentadas pelas plataformas digitais para justificar seus processos internos - de uma disputa muito mais profunda que tem ocorrido mundialmente e que tem tido como um de seus principais palcos as redes sociais. Trata-se de um projeto de cruzada antigênero que se alastra por diferentes territórios do globo e que tem ocorrido, também, no Brasil (Irineu et al., 2022).
Esse projeto tem como pano de fundo o combate ao que tem sido chamado de ideologia de gênero e o fomento a um pânico moral e coletivo que tem ganhado repercussão pública desde desde meados de 2010, com debates em torno da retirada do termo gênero do Plano Nacional de Educação, acentuando-se em 2017, com a censura à exposição Queermuseu e o ataque de neofascistas à Judith Butler no Sesc Pompeia - esses são apenas alguns dos episódios marcantes que inauguram esse momento mais midiático do debate (Bulgarelli, 2020).
Quando o filósofo Paul Preciado (2018, p. 27) pergunta “como o sexo e a sexualidade chegam a se transformar no centro da atividade política e econômica?”, ele busca fazer uma genealogia da centralidade das questões sobre sexo, gênero e sexualidade na sociedade ocidental, reiterando o caráter de disputa em torno dessas produções de sentidos, imaginários e controle sobre os corpos. A questão sobre “quem tem medo de gênero?” foi aberta de várias formas pela filósofa Judith Butler em seu livro de mesmo nome. A autora identifica a existência de um “fantasma de gênero”, que teria sido formulado por meio da ideia de ideologia de gênero desde os anos 1990 pela Santa Sé e por grupos e intelectuais católicos, para discutir o espraiamento desse tipo de discurso e política pelo mundo, juntamente com a defesa da noção de “família”.
Essa centralidade fica ainda mais visível no contexto em que vivemos hoje, com um aumento na perseguição dos direitos de pessoas trans, desde a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, sustentando muito de seu discurso de posse a partir da ideia de que ”agora só existem dois gêneros: masculino e feminino’, diz Trump em discurso de posse”. No Brasil, isso fica evidente com o aumento dos Projetos de Leis anti-LGBTI+ em todas as câmaras e assembleias do Brasil. A Agência Diadorim faz um monitoramento dos Projetos de Lei sobre população LGBTI+ no Brasil através da plataforma Observatória. Segundo os dados da plataforma, 4 em cada 10 PLs anti-LGBTI+ afetam a população trans. Organizações como a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), por meio do Dossiê Mátria (2025), e o Sexuality Policy Watch, por meio da publicação Ruinologia: uma cartografia da política anti-gênero do governo Bolsonaro (2025) têm buscado mapear as transformações nas ofensivas anti-gênero no Brasil, cuja extensão dos atores envolvidos incluem não apenas grupos e setores religiosos, conservadores e de extrema-direita, mas também feministas transexcludentes e estratos progressistas.
Esses eventos vêm na contramão dos direitos alcançados nos últimos anos e têm se manifestado como uma verdadeira caça às bruxas, mas não só isso: ajudado a demonstrar, também, como esse enfrentamento, essa movimentação antigênero, tem servido como uma engrenagem para alavancar uma escalada fascista ao redor do mundo.
Nas últimas semanas, as discussões têm girado em torno de dois eventos: o anúncio da criação de uma Aliança LGB no Brasil, uma iniciativa que já vinha acontecendo internacionalmente, e as polêmicas sobre a presença desse movimento e de outras organizações transexcludentes na 5ª Conferência Nacional de Mulheres, em Brasília. Felizmente, a Conferência terminou com reafirmação do compromisso no enfrentamento ao racismo, ao sexismo, à lesbofobia, bifobia e à transfobia.

Entre os dias 21 e 25 de outubro, será a vez da 4ª Conferência Nacional LGBTQIA+ ocorrer em Brasília, momento em que será fundamental a defesa de um movimento LGBTI+ que, apesar de suas singularidades, assimetrias e divergências internas, comuns a qualquer movimento social, mantêm-se, apesar das investidas atuais, como uma federação de identidades, expressões de gênero e orientações sexuais, uma aliança estratégica de identidades políticas. Não porque cada uma das partes simplesmente compõem um todo, de modo que cada parte possa ser destacada. Mas porque as condições históricas e políticas de surgimento e perpetuação do movimento LGBTI+ se deram por meio da atuação de um conjunto diverso de identidades das quais inegavelmente se incluem travestis, homens e mulheres trans, pessoas transmasculinas, pessoas não-binárias e demais identidades. Esforços revisionistas e divisionistas que buscam tratar o movimento LGBTI+ como um menu à la carte, em que é possível escolher quais identidades ficam de dentro e quais ficam de fora, precisam ser denunciados como aquilo que são: não como um problema apenas de militantes e organizações trans, mas como uma questão a ser tratada e superada pelo conjunto do movimento e das organizações que o compõem. Este é o nosso posicionamento.
Nós, do Instituto Matizes, temos como missão a formulação de dados e informações qualificadas, baseadas em um compromisso político com as organizações, para que elas ampliem o conhecimento sobre a população LGBTI+. Temos como compromisso, também, a produção e co-produção de dados sobre a população trans, reforçando nossa responsabilidade com o movimento trans no fomento de conhecimentos responsáveis e eticamente implicados. Orientação sexual e identidade de gênero não são dimensões da vida que caminham separadamente. O movimento LGBTI+ é, também, um movimento trans, porque sem as pessoas trans, em sua diversidade, nós não teríamos avançado. Essa fissura não existe e nem poderá existir.
Quer dar uma olhada nas referências que citamos nessa news?
BULGARELLI, Lucas. Das políticas de gênero e sexualidade às políticas antigênero e antis-sexualidade. In: FACCHINI, R.; FRANÇA, I. L. (Org.) Direitos em disputa: LGBTI+: Poder e diferença no Brasil contemporâneo. Campinas: Unicamp, 2020.
BUTLER, Judith. Quem tem medo de gênero? São Paulo: Boitempo, 2024.
IRINEU, Bruna Andrade; SANTOS, Catarina de Almeida; HERNÁNDEZ, Franklin Gil. Guerras antigênero: batalhas morais e políticas de ódio. In: Anais do VIII Seminário Corpo, Gênero e Sexualidade, IV Seminário Internacional Corpo, Gênero e Sexualidade e IV Luso-Brasileiro Educação em Sexualidade, Gênero, Saúde e Sustentabilidade. Campina Grande: Realize, 2022.
PRECIADO, Paul. O manifesto contrassexual: práticas subversivas da identidade sexual. São Paulo: n‐1 edições, 2018.
